Direito de resposta

Às vésperas de lamentarmos as 300 mil vítimas de covid-19, uma montanha de gente morta com a fundamental colaboração da mão invisível do mercado e do negacionismo oportunista de uma numerosa parcela da população, da elite eugenista à periferia abduzida – e da amestrada classe-média limpinha cheirosa –, rastejamos no lodo imobilizador da cultura liberal hegemônica – que não gosta que ninguém se aprofunde, que vá até a raiz das questões, tornando-se radical, inimigo número um da zona de conforto – e nos agarrando a pequenos fragmentos boiando no chorume que jorra das profundezas lodosas das escolhas difíceis, como se fossem poderosos encouraçados prontos para nos salvar do inevitável fim.

Em todos os rincões do entorpecido gigante, anuncia-se um cenário de guerra, hora para capitães e generais fazerem valer os penduricalhos que envergam em seus empoeirados uniformes. Guerra contra quem, ninguém ataca ou contra-ataca? Salvo raras exceções, daquelas e daqueles que pontualmente atuam em defesa do básico, convocando a todas e todos a plenos pulmões, não há real resistência: há resignação. Aguardam ansiosamente a chegada do herói indestrutível que virá dos céus, criatura divina, para num estalar de dedos nos livrar de todo o mal, amém.

Não é de se admirar que estejamos em tal situação. Fomos doutrinados por anos à fio para negar a política como ferramenta essencial que cada um de nós deveria carregar consigo, pronta para uso a cada pequena ameaça à democracia. A caneta, o pincel, a enxada, a mão, o abraço, o afeto. Não importa sua forma. Ela é. Mas fomos seduzidos pelas cores, luzes e sabores artificiais da liberdade de consumo e consumidos somos.

O excrementíssimo presidente Jair Bolsonaro, simula indignação, não porque se sente ofendido, mas para divertir a súcia ruminante, um bufão no controle de meia-dúzia de mentecaptos, um bufão à serviço do golpe. Não vamos parar Bolsonaro com xingamentos, notas de repúdio, panelaços, carreatas ou sensibilizando o bolso da classe-média. O próximo Bolsonaro já está sendo gestado. Precisamos queimar até as cinzas a fábrica de fazer Bolsonaros. Pra ontem. Amanhã, teremos mais dois mil mortos.

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